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Prof. Lourival Filho
A "via crucis" do ensino médio

     - Professor, fala mais alto que eu não tô escutando nada!   Disse o aluno da última fila. A aula era sobre geradores e a desordem era geral.  A loirinha bonitinha da frente via um vídeo no MP4 e a maior parte dos alunos conversava sobre outro assunto. Um aluno levanta e diz: 
      
- Professor!  Eu posso atender o celular? Minha mãe quer saber a que horas eu saio!                  
     
-Claro! debochei, já atendeu mesmo !                                 
      Que dar aulas no segundo grau das escolas, hoje em dia, é uma arte de sobrevivência, não é novidade. O professor entra na sala de aula para enfrentar o caos e a escuridão, concorrendo com o MP3, o MP4, o celular com televisão, o vídeo-game de bolso. O que era um fenômeno somente da classe média, chega as escolas públicas. Os eletrônicos estão muito baratos e são mais atraentes que a aula. Nas escolas particulares, a sala de aula é a sala de estar da casa deles e com algumas vantagens: tem ar-condicionado e atendimento vip do professor. Se eu fosse colocar pra fora de sala todos os alunos que de uma forma ou de outra, estão desinteressados na aula, de 40 alunos na sala, iam sobrar uns três. Não tem como competir com a tecnologia.  O pior dessa história é que professor que tira aluno da sala de aula acaba ficando visado como um educador problemático. Mas, tem professor que consegue dar aula. O grande segredo é não enfrentar o aluno. Mais triste ainda é constatar que não precisa ter conhecimento profundo do conteúdo. Se você for um professor mediano, souber somente o básico, mas tiver muita conversa e paciência, vai sobreviver por anos como professor. Os alunos não exigem muito conhecimento de sua parte e muito menos a escola.  A maior parte delas quer exatamente o seguinte: Não falte, não crie problema e entregue suas notas em dia. É inacreditável como o conhecimento, a especialização, o domínio do conteúdo, deu espaço para a mediocridade. Se o professor se comportar como "boa gente", obediente a tudo que lhe mandam, não pressionar ninguém, será adorado pelas massas. É de entristecer quando você acessa os sites de relacionamentos das escolas e lê os seguintes comentários: “Eu gosto do professor fulano, porque ele é hilário, morro de rir nas aulas dele! É o melhor contador de piadas“. É nesse momento que o professor troca sua dignidade, seus anos de estudos na Universidade por um título de humorista. Tudo em nome do bom relacionamento com o aluno. Esse mesmo aluno que anos depois fazendo pré-vestibular, vai dizer: Meu ensino médio foi uma desgraça total ! Eu não consegui aprender nada! A maioria dos meus  professores passavam o tempo contando piadas!"                                                                 
      
Recentemente, li um artigo no Yahoo em que uma mulher holandesa estava processando a escola em que estudou, por que o educandário deveria ter impedido que ela se tornasse uma prostituta. Uma tal de Maria Mosterd, queria uma compensação por parte da Thorbecke School, da cidade de Zwolle, que fica a 120 km de Amsterdã, na Holanda. Ela tem 20 anos de idade e escreveu um livro sobre suas experiências de sua carreira e diz que ela foi tirada da escola por cafetões que a forçaram a se envolver sexualmente com outros homens, em troca de dinheiro. O tribunal de justiça de Zwolle rejeitou o processo e afirmou que a escola entrou em contato várias vezes com a mãe dela, para alertá-la sobre a quantidade excessiva de faltas que sua filha tinha. A mãe nunca apareceu na escola. Na verdade, casos como esse, refletem uma triste verdade: Os pais não conseguem ter o controle sobre os filhos e repassam essa obrigação para a escola. Por outro lado, a escola não tem condições de exercer a autoridade do pai e da mãe. É realmente uma situação engraçada, como a grande maioria dos pais levam um susto ao saberem que o filho está reprovado. Eles simplesmente nunca participaram de nenhuma reunião de pais e mestres ou sequer leram o boletim bimestral dos filhos. A escola é simplesmente um depósito, um lugar onde os pais deixam os filhos pra se livrarem deles, pelo menos por um tempo. Muitos pais instruem o filho a deixarem o celular ligado, caso precisem falar com eles ou que liguem a qualquer hora ou em qualquer aula, caso seja necessário. Eu me pergunto: Antes do celular existir, como as coisas eram feitas? Eu lhe digo: O pai ligava para a coordenação, e o coordenador fazia uma avaliação da real necessidade da retirada do aluno da sala de aula. Eu já presenciei um aluno ligando pra casa, no meio da aula, pra perguntar o que tinha pro almoço. A maioria das ligações de celulares que os alunos recebem durante a aula é pura bobagem.                                                                                  
       Mas, infelizmente os professores vivem com medo. Se o professor apontar o dedo para um aluno, aparece uma dezena de promotores de menores pra processá-lo. Eu já soube e vivenciei muitos casos em que o aluno agride fisicamente o professor e a escola mudou simplesmente o aluno de turno ou pediu para que o professor esquecesse o assunto, em nome de seu emprego e de problemas na justiça. É a sublime humilhação. É a redução do educador a coisa nenhuma. É a degradação de uma classe que nunca foi mesmo o top de linha das profissões.  Entretanto, eu não condeno as escolas. O monte de leis que foram criadas para proteger o menor oprimido, somente beneficiou o menor infrator. Nós estamos de mãos atadas e os menores infratores sabem disso.                
        
Hoje, o aluno que assiste às aulas no pré-vestibular, ou nas salas preparatórias de concursos e que vem das escolas de ensino médio, sofre uma incrível metamorfose. Humilde, calado, cabisbaixo, ele percebe do modo mais duro possível, que a vida não é uma festa como era na escola. A idéia que ele tinha de que estava preparado para enfrentar o mundo, cai por água abaixo. Ele percebe decepcionado, que seu aprendizado até esse ponto foi uma profunda mentira e que muito provavelmente ele não vai chegar a lugar nenhum. O desespero bate e ele começa a procurar um culpado. Ou foi a escola, o professor ou os pais que não acompanharam seu desenvolvimento. Talvez um desses elementos tenha culpa, porém o maior culpado é o próprio aluno, quando aceitou passivamente essa situação, que muitas vezes lhe era conveniente. Poucos são os que assumem a culpa por ter tido todas as oportunidades de aprender e de ter desperdiçado a maioria.                       
       Porém, ainda temos jovens com consciência e responsabilidade. Apesar de ser minoria, são eles os responsáveis por fazer a máquina social funcionar. As Universidades particulares, especialmente em São Luís, constituem-se num fator decisivo para o desinteresse dos alunos do ensino médio. Fazer um curso superior em São Luís dá menos trabalho do que comprar um pão na esquina. O fato de qualquer um poder fazê-lo, não representa a democratização do ensino, mas a comercialização do ensino. Tem cursos com mensalidades de todos os preços, alguns mais baratos do que uma entrada de boate ou um jantar na churrascaria rodízio. É a universidade-lixo, pois oferece uma qualidade de ensino proporcional ao valor pago. São os camelôs do ensino superior. Mas, a propaganda é forte. O aluno passa a raciocinar, enquanto no ensino médio, que não precisa aprender nada para entrar na universidade particular. É só fazer uma entrevista e pronto. Esse aluno constitui-se num potencial cliente das universidades-lixo. Porém, a estratégia das universidades particulares mudou. Um novo slogan surgiu: “É fácil entrar, difícil é sair!“. Elas desejam passar a idéia que vão oferecer dificuldades para o aluno durante o curso, ou seja, se não estudar não passa. Mais uma mentira vergonhosa. A estatística mostra que dos alunos que se formam em direito nas universidades particulares em São Luís, 80% deles não passam no exame de ordem da OAB. Porém, essa vergonha não é exclusividade nossa. O senador Wellington Salgado, dono de uma universidade no Rio de Janeiro, tentou no começo do ano, numa audiência na comissão de cidadania e justiça do senado federal, aprovar um projeto que desobrigava os alunos formados em direito de prestarem o exame de ordem. É evidente! A universidade que ele é dono não consegue passar ninguém no exame!          
        O fato das universidades-lixo oferecerem uma grande quantidade de cursos da área de humanas , já se constituia num fator extremamente preocupante, pois indiretamente mexe com a vida, em sua expressão literal, mas é olerável até o ponto em que, essas atividades profissionais podem ser controladas externamente por orgãos de fiscalização . O meu desespero real começou quando elas começaram a oferecer cursos voltados à área médica. Todos sabem do corporativismo que existe no CRM . E agora? Com quem vamos nos consultar? Vai ser um eterno risco. Pode ser tanto com Dr. Jekyl como com  Mr. Hyde. É com o médico ou com o monstro?. Entretanto, e
u não quero ser a palmatória do mundo, eu só quero que não digam que eu não avisei!

15:30:23 . 14 Jan 2010
Admin · 72 vistos · 1 comentário

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http://blogspot-loufilho.criarumblog.com/Lourival-b1/A-via-crucis-do-ensino-medio-b1-p56781.htm

Comentários

Comentário de: Rogério Andrade [ Visitante ] Website
Caro professor Lourival,
Em primeiro lugar quero parabenizá-lo pelo blog. Ele está muito bem servido de sabedoria. Além do mais, creio que é uma ferramenta muito poderosa no combate à ignorância e que devemos (nós professores em especial) usá-la em nossa lida educacional.
Concordo com o seu pensamento quanto à condição precaríssima da educação brasileira, em todos os seus níveis. O quadro em que vivemos demonstra o total abandono a que condenamos a nossa juventude e, por decorrência natural, a nós mesmos, pois serão eles que cuidarão da sociedade quando formos bem velhinhos (espero poder ficar assim).
Entretanto, permita-me contrariar a seguinte passagem de seu texto e, de antemão me desculpar por correr o risco de deixá-la fora de contexto com a minha atitude. Ei-la: \\\\\\\"Enquanto as universidades-lixo ofereciam apenas cursos da área de humanas , eu não me preocupava muito.\\\\\\\" (sic)Na verdade, a sua, a minha e a preocupação de toda a sociedade deveria ser maior nos cursos de humanas justamente porque eles é que formam para o compromisso ético e solidário que as diversas técnicas devem ter. Imagine um médico sem uma formação humana consistente, o risco de ver em seus pacientes apenas um bocado de matéria doente é muito grande e assim esquecer que somos seres de paixões, de sentimentos, de dores e prazeres que não se limitam ao material.
Imagine uma sociedade de engenheiros que saibam projetar espaços lindíssimos, mas que não considerem os seres humanos que irão ocupá-los!
E, por fim, mas sem terminar, como podemos esperar uma educação mais comprometida com o conhecimento, com a aprendizagem crítica e significativa quando os cursos de formação de pensadores e cientistas humanos são desenvolvidos de qualquer jeito? Assim, não é à toa que a tecnologia é mais atraente, pois relegamos o humano ao segundo plano.
Saudações Jusfilosóficas,
Prof. Rogério Andrade
   22/02/2010 @ 22:04:05

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